sábado, 28 de setembro de 2019

Resposta a "o personagem mais odiado e o quanto ele te ensina"


(Aonde eu novamente respondo desnecessariamente a opinião de outro pessoa sobre Evangelion, de novo)


Esta vai ser uma curta, mal elaborada e meio incompreensiva “resposta” ao vídeo https://www.youtube.com/watch?v=ZzO7X1_1Rao. Quero prefaciar a discussão dizendo que no geral gostei do vídeo, ela faz um trabalho bom em entender elaborar a circunstância, mentalidade, e questões principais pelas quais passa o personagem (no máximo as vezes tocando em certos pontos de forma superficial). Só existe um conceito refletido no vídeo, e em vários outros, incluindo o do canal quadro em branco em relação a End of Evangelion extremamente problemático.  Este é de o final da série, e Eoe apresentarem mudanças e diferenças significativas em termos do arco do personagem, sua conclusão, e das mensagens as quais são transmitidas.


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(Fuck episódios 25 e 26 basicamente) 


Tal interpretação é extremamente insatisfatória e não apresenta muito de correspondência no filme em si. Muitos olham para a natureza de atos como a masturbação para mostrar mudança no personagem. Quando muito pelo contrário eu acho tal ato a progressão perfeita, Shinji já desistiu de viver, achar valor, e escolhe simplesmente machucar e ferir os outros. Da mesma forma ocorreu com Kaworu, fazer algo horrível, assim as pessoas o odeiam, ou na verdade deveriam odiá-lo, ou se realmente o conhecessem o odiariam. Ou assim é o raciocínio.


O confronto com Asuka, em meio a alucinatória experiência da instrumentalidade é na verdade o exemplo perfeito da atitude do personagem na série inteira. Seu pensamento é simples, eu quero compreensão ser preenchido, achar amor, ajuda nos outros, mas ao mesmo tempo não consigo me importar com eles, realmente me abrir e me dispor a conhece-los. Na verdade, todos os questionamentos giram ao redor desse percebido isolamento, como está sozinho, não consegue compreender, ninguém liga para ele. Como as pessoas tornam tudo desnecessariamente ambíguo, com seus sorrisos falsos, palavras não ditas, e sentimentos nunca explicados. Isso é o básico do básico do Shinji da série, e exatamente o que o leva a escolher o fim de individualidades, abstraído no estrangulamento da Asuka no filme. (Resumidamente, sou preguiço demais para ir em detalhe sobre tudo que está ocorrendo).


O mundo abstrato dos episódios 25 e 26, e o universo da instrumentalidade em EOE, servem exatamente ao mesmo proposito. Neles o personagem se acha numa realidade sem senso de eu nem dos outros. Aonde a dor de existir e se relacionar é simplesmente um não fator, e todos os conceitos e barreiros do ser imagináveis perdem a importância. Shinji acha tal situação infinitamente 
insatisfatória, angustiante.

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(Sério esses epis são elogiados demais por fazerem a mesma coisa que Eoe, sem nada da nuance)


Ambos estão ali para passar a mesma ideia ao personagem, uma outra forma de enxergar os outros e a si mesmo. Nela existem os símbolos do filme para esperança (Rei), e amor (Kaworu) que o confrontam sobre as certezas e circunstancias que encontrou e vai encontrar. Sua confiança no próprio desmerecimento, o ódio, o fato de poder encontrar apenas dor são completamente sem base. Existe um mundo de possibilidade interpretações que Shinji se fecha ao acreditar nisso, sua fuga não sendo de pilotar o robô, mas sim de encarar a si mesmo, fazer as escolhas e viver. Há um universo de oportunidades, talvez até amor, este fugaz e frágil sentimento que o filme nem apresenta confiança sobre se é possível entre humanos.


Tal encontro e conversas o levam a uma conclusão. Eu quero viver estar ao lado dessas pessoas de novo.  O entendimento que a realidade pode estar cheia de dor, e que ele vai voltar a sofrer ao existir, são claros. Mas Shinji finalmente se permite acreditar que suas relações tiveram significado, que ele foi feliz quando estava com eles, não havia só ódio ali. Existe uma aceitação pessoal, rolando uma abertura ao mundo e suas infinitas possibilidades. Ele pode achar que se odeia, e não estar certo de nada, mas quer voltar a ser, Shinji Ikari, e talvez construir uma nova versão, o eu melhor que aprendeu a se amar.


Os infames últimos instantes de Shinji e Asuka, longe de uma contradição são na verdade a prova da mudança. Apesar de um certo youtuber interpretar tais cenas como Shinji sendo um sociopata e que ele quer fazer o mundo sofrer, tal interpretação é absurda. De fato, a conclusão é a prova final, agora longe da leveza e abstração da instrumentalidade, Shinji quer provar seus laços. Fazendo isso colocando uma de suas relações em teste, será que ao agredir fazer um ato extremamente repugnante este encontraria ódio, contrariedade? Shinji parte pra Asuka com intenção de matar e encontrar apenas frieza, dor. Ao invés disso esta o acalma, acaricia quase carinhosamente o fazendo parar. A vida pode ser um inferno, ele está parado no meio do apocalipse. Mas neste único instante Shinji escolheu, realmente não feriu outra pessoa se abrindo a outra possibilidade, resultado. As palavras de Yui sua mãe são as mais importantes, enquanto seres humanos acharem a força de vontade de viver, qualquer lugar pode ser paraíso, afinal.

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(Eu culpo o Kitsune pela visão principal atual sobre EOE)


quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Kekkai sensen review


(os lentos passos para viver,  e se autoafirmar, em Kekkai Sensen)


Esta vai ser uma estranha e não usual review de Kekkai Sensen. Numa leitura do anime é fácil defini-lo como uma superficial, mas extremamente divertida série de ação. Nesse ponto tenho uma de minhas muitas discordâncias com a recepção critica a obra. Meu ponto se encontra em defender a própria aleatoriedade em eventos, circunstancias, pouca conexão, e desenvolvimento narrativo, como uma das melhores qualidades do anime.


Em Kekkai Sensen eu acho um trabalho, que entende o apelo mais simples de ação.  Sabe que a emoção nessas historias está na adrenalina, excitação quanto a grandes e bombásticos momentos.  Que no fundo estamos aqui pela energia, explosões a cada segundo, cacofonia e desastre que se consiste desse mundo, entende que a construção, e como chegamos nesse momento de catarse, nem sempre é o principal. É algo que se aprofunda em razão da inconstância, no sentimento infantil, que se movimenta pelo fato de a cada esquina do mundo que somos introduzidos, ter um super vilão com algum esquema megalomaníaco, numa cidade que é constantemente destruída, mas nada parece mudar. Aonde qualquer poder ou habilidade possível, pode se materializar em uns dos seus cantos mais obscuros. Compreende ao contrário de long running Shonen, que nos prendem em centenas de capítulos de desenvolvimento, tediosas construção de historia, detalhamento de mundo e épicas narrativas que agregam muito pouco. Nos poucos segundos, momentos e cenas de HYPE, está o ponto, e apelo de uma boa obra de ação.


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(A calma e satisfação depois da tempestade)


A forma como os personagens são escritos busca capitalizar exatamente nisso. Temos um colorido de variadas personalidades, muitos vindo com suas próprias características, quirks, motivações, aspectos e reações únicas. Sempre escrevendo tais com uma energia, vigor, um senso de self awareness que não é o de preguiçosamente transforma-los em piadas, mas uma capacidade de crer e os representar em completa sinceridade, não importando quão ridículas as propostas, e situações. Não importa que raramente estes sejam psicologicamente profundos, isso está longe de significar algo, mas simplesmente a enorme variedade de poderes, situações, comedia, ação, emoção que os personagens criam, é um dos aspectos fortes do anime.


Existe uma beleza e intriga numa historia que troca, quase sem dar muito importância, entre episódios sobre lutas no submundo do boxe, a busca de uma deusa por amor verdadeiro, que destrói a cidade em seu caminho, o conflito de vida ou morte contra os vampiros capazes de aniquilar a humanidade. Kekkai Sensen é aquela criança hiperativa que a cada momento parece estar tentando se superar, fazer algo novo, aumentar a escala, o absurdo, a cacofonia, as explosões, de uma forma tão sincera que vc não consegue não amar. Tudo isso aliado com um senso de estética e estilo, visto em cada momento, cenário, assim como em alguns dos designs de personagens mais únicos e inesquecíveis da mídia.


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(Essa ED é catchy e estilosa as fuck por sinal)


Esses aspectos são impressionantes, e mereciam uma mais retida analise, mas não é neles que estou interessado. Minha descrição é verdadeira até aqui das várias iterações de Kekkai Sensen, ambas as temporadas, e o manga. No entanto com a participação da diretora, Matsumoto Rie na primeira, a obra alcança outro nível, sendo dela muito possivelmente os melhores elementos, coerência temática, conflito, e efetiva mensagem. Assim focarei mais na contribuição dela a obra, buscando detalhar tais pontos.


Se eu fosse resumir Kekkai Sensen em um tópico, seria de uma intima, e profunda luta contra o desespero. Tal sentimento é pervíssimo na serie, a sensação de ausência de proposito, de que nada vale a pena, uma visão da vida e do mundo como um imenso vagão em movimento, o qual somos apenas um reles espectador, observador. Existe uma vontade de confrontar nossa impotência, capacidade de entender o mundo, realmente reconhece-lo, muito menos vir a ser reconhecido. Se nem num caráter individual, ou mesmo interpessoal junto a nossas pessoas mais próximas, somos capazes de chegar a um mínimo de compreensão, imagine quanto a um universo caótico, que se nega a qualquer definição e simples entendimento.  O que uma simples pessoa pode fazer no meio de tudo?


Essa ideia é literalmente incorporada no King of Despair (esse nome é bom, e edgy demais pra ser traduzido) um espirito da eterna complacência, e tendência ao desespero da humanidade. Este é assombração do final de todo homem, cada idealista, obstinado, confiante, trazendo a perspectiva de que aquilo que aguardava todos eles era o fracasso. Ele observa nas entrelinhas o desenrolar de todas as eras, e apenas achou erros, insucessos, e infelicidades no caminho humano.


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(Crawling in my skin)


De certa forma contraposta, de outras aliadas a tal visão, está a sempre presente em trabalhos da diretora ideia da importância da família, seu lugar único na formação da personalidade, e crescimento (https://heroineproblem.com/2016/04/18/sakura-con-2016-rie-matsumototoshihiro-kawamoto-interview-part-1/). Nada fala mais sobre tal tópico do que a narrativa original do anime, a historia dos irmãos Macbeth, Black e White. Em sua infância os irmãos eram principalmente definidos por seu relacionamento com o outro, como estes se completavam, tinha características e as qualidades contrarias. Este laço movia e impulsionava a vida dos dois jovens usualmente de forma positiva, os movendo a maior empatia, auto conhecimento e compreensão. Na verdade a infância destes foi normalmente feliz, tinham pais compreensivos que sempre os apoiavam, paz, tranquilidade, e principalmente podiam contar um com o outro em todos os momentos.


Mas nisso o mundo, sua casualidade e o absurdo decidiram reagir, dilacerando a tranquilidade, e segurança do lar familiar. Black numa tacada só perdeu tudo, seus pais morreram na catástrofe que mudou para sempre Nova York, White é colocada num estado de semi existência, na qual ela pode desaparecer a qualquer momento. E ele sozinho, é deixado para entender a realidade e o ocorrido.
Humanos que imaginam terem perdido tudo, vendo laços despedaçadas, futuros e perspectivas perdidas, obviamente tendem a abraçar o desespero. Lembranças de um passado muito amado se tornam dolorosas, tristes demais, pois referentes a algo para sempre perdido. O próprio amor e afeto que existiam e eram tudo a um segundo atrás se tornam uma fonte de tormento, dificuldades, e muita dor. É muito mais fácil se esconder sobre a mascara que esse fim era simplesmente inevitável, é obvio que tais iriam acabar, é claro que estas nunca significaram nada e são completamente irrelevantes. Admitir o peso e importância que o que passou teve na sua vida, é muitas vezes muito pior do que simplesmente negar, aceitando o fim como inevitável.


Mas na verdade existe uma mentira e contradição implícita, no fato de Black se tornar o receptáculo do King of Despair. Este finge aceitar o desespero, a não importância de relacionamentos ou qualquer coisa, mas existe outra mascara ali, para suas verdadeiras intenções. O fato de estar trabalhando por um novo apocalipse, extinção da humanidade, são na verdade unicamente motivadas por medo, a vontade de não vir a perder nada mais. Sua irmã, a pessoa que ele mais se importa, sempre esteve junto, e o conhecer melhor que ninguém esta em jogo, sendo a resposta apenas o único meio para salva-la. O que são milhares de vidas, a humanidade, essa cidade e seus habitantes, em frente a uma razão de viver, quanto a qual não imagina uma vida sem? A trágica decadência e espira negativa do personagem é marcada por empatia, sentimentos compreensíveis, e uma demonstração de talvez aquilo mais belo na humanidade, completo desapego em face daquele que ama.


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(The edgiest, edgelord)


É possível achar eventos semelhantes, remições as mesmas ideias na jornada de Leonardo Watch, nosso protagonista. Este também é subitamente tirado do meio familiar e jogado na vida adulta, pela perda de visão por sua irmã, esta circunstância piorada, pois o ocorrido foi resultado de sua própria covardia, incapacidade de protege-la. Tal ato, as consequências dele, o remorso relacionado destroem o personagem, acabando com sua autoestima, e ideia de eu. A motivação inicial de Leo na verdade é uma mentira, ele não vai a Hellsallem’s lot para recuperar a visão da irmã, mas sim para fugir dela. Na cidade este inicia uma vida de autocomiseração, culpa, melancolia preenchendo seus momentos, uma completa ausência de perspectiva ou proposito o marcando. Nada que pode vir a acontecer importa, nada nele é relevante, pois todo o resto eclipsa frente a enorme vergonha, e culpa por sua falha federal.


A insistente definição de Leonardo como um garoto normal pelo anime, está longe de uma observação de fato, mas é uma declaração ideológica sobre sua natureza. Ele é o jovem normal definido por seus olhos, na cidade do extraordinário. O mundo e todos a sua volta estão lotados de magia, mistério, poder, intriga, estranheza, características inestimáveis, o contrapondo como ser mundano e desinteressante. A verdadeira ironia em sua condição é que Leo é capaz de enxergar muito, obtendo os todo poderosos olhos de Deus, mas é completamente cego e obstinado a não ver seu próprio valor.


As jornadas paralelas, não são objeto de coincidência, mas permitem entender os desafios ideológicos, e dificuldades que um personagem traz ao outro. Mas as diferenças de atitude, muitas vezes dizem mais do que semelhanças entre eventos. Ao invés de se deixar definir pelo passado, medo de perda, Leo avança e cresce. Ele tem como principal características sua enorme empatia, desejo de entender e ajudar as pessoas além da medida do possível. Essa postura o permite novas experiências, a de finalmente encontrar Libra.


Longe de querer avaliar Libra como organização, acho importante a definir em termos do Ethos que ela ganha na série. Eles são esperança, um grupo de pessoas lutando por uma causa perdida, olhando e supervisionando a cidade que eles não tem qualquer condição de olhar e proteger. Cada membro é caracterizado pela capacidade de sempre fazer seu melhor, enfrentar as dificuldades, na tarefa ingrata de ajudar a cidade. A abertura de Leo ao mundo, e a realidade além dele o permitem conhecer sua nova família, os indivíduos que o deram esperança e a capacidade de enxergar um futuro.


E nesse ponto vou precisar falar em enorme detalhe do bombástico episodio, que encerra e conclui magistralmente cada ponto levantado na obra. A negação da realidade, e de até de si mesmo do King of Despair atinge seu ápice, jogando o mundo inteiro numa cruel escolha. As opções são claras ao se entender a ideologia deste. Ou finalmente a humanidade seria capaz de rejeita-lo, ocasionando sua morte assim como a de Black, encerrando uma existência que ele mesmo concordaria inútil, e sem valor. Ou este traria um cataclismo, a repetição do fenômeno que causou o violento choque entre a humanidade e o lado paranormal, só que dessa vez em escala planetária. Finalmente mostrando que a civilização que os homens passaram milênios construindo, toda a obstinação, confiança, ideais destes não tem qualquer valor ou significado, e podem ser facilmente reduzidos a nada. A dúvida existencial que o personagem levanta será aplicada em escala universal.


Leonardo é desafiado exatamente aonde este é mais sensível, o senso de impotência e falta de merecimento. A dúvida que o percorre é se este merece intervir, tem a capacidade de fazer qualquer coisa, alguém vulnerável e normal como ele. Mas nisso ele encontra confirmação, cada uma das pessoas da Libra está ali, esperando, mostrando confiança nele. Laços se mostrando a enorme fonte de força, capacidade de seguir em frente.


Nesses termos se dá o confronto entre Leo e o King of Despair. Este reafirmas seus ideais mesmo nesse momento, o mundo está cercado de confiança, pessoas com obstinação e desejo de pará-lo, mas tais são inúteis, urgindo Leo a mata-lo. Mas a situação, vida nunca são tão simples a ponto de apresentar apenas essas duas escolhas. O personagem passou a temporada inteira tentando entender o mundo, seus habitantes, circunstancias, problemas conflitos, para ser realmente aceitável, que essas existências não significam nada. Existem tantas pessoas, nenhuma delas é um mero figurante, cada uma repleta de seus próprios conflitos, circunstancias problemas, ideologias, que simplesmente abstrair um único ideal que os resumiria é absurdo. A negação do anime ao desespero parte não de um lugar de recusa a sua existência, pois a vida esta lotada de conflitos inúteis, desejos não realizados, perdas que parecem reduzir qualquer proposito ou razão, ao nada. Mas de afirmar, isso é o viver, que o mero fato de tentar está errado, que qualquer crença é uma ilusão. Que não faria qualquer diferença, tanto a morte do mundo, quanto a de até uma única pessoa.


Leo na verdade assume um compromisso com essa visão, apesar de não ter capacidade de responder qual o significado e proposito, este deseja continuar vivendo, criando relações, sentido, para um dia realmente apresentar uma resposta melhor em face dessas questões. Kekkai Sensen acha sua tese não numa simples resposta mas numa atitude, método de encarar a vida, enxerga-la, e ainda se motivar, que considero particularmente fascinante.


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(Eyes open for the future)


Indo nesse mesmo ponto, encontramos a resolução para Black. Seus desejos contraditórios são expostos, apesar de se dizer fiel ao King of Despair, este é incapaz de imita-lo havendo no fundo um desejo de viver, existir impossível de suprimir. Também acontece o derradeiro dialogo entre os irmãos Macbeth nesse instante, aonde Black é confrontado em suas vontades. Este dizia estar apenas agindo, buscando salvar sua irmã, e que esse era o único método, mas na verdade ela é apenas um desculpa. White não deseja essa realidade, não quer uma vida de seu irmão preso ao passado, a ela. Na verdade ele a esta usando como justificativa, razão para agir, é ok desistir, considerar que o mundo não tem valor, nada do que eu fiz esta errado, quando na verdade tal perspectiva apenas causa angustia aos dois.


Em tais termos ocorre a reconciliação dos irmãos, ao reconhecer a vontade e desejo um do outro, abraçar os sentimentos e dor referente a perda não como uma desculpa para não tentar, mas sim como a fonte de poder, e capacidade de criar um novo futuro. Black permite a sua irmã escolher seu destino, e se permite aceitar sua própria existência, o calor confiança e amor que sentiram por aqueles que se foram sendo exatamente a razão de conseguir restaurar a barreira que sustenta o mundo. Nesse sentido o personagem abandona o lar familiar, capaz de existir e se afirmar perante os outros, com as lembranças daqueles que eram mais importantes que tudo.
Kekkai Sensen no fundo é uma historia sobre achar esperança, significado em um mundo caótico e desesperado. Busca de qualquer forma demonstrar que não se deve deixar facilmente definir, que um único fato, evento, ou circunstancia venha a eclipsar sua personalidade. Ecletismo é a ideia que Kekkai Sensen vive, e morre por, ao aceitar a confusão, conflito, e incertezas cercando todos os aspectos da realidade Isso encapsulado na jornada de nosso protagonista, Leo, buscando entender a realidade e a si mesmo, progredindo a passos largos ne sentido de aceitar seu valor, em pequenos gestos como não questionar um elogio ao final do anime. Talvez seja meio presunçoso dizer, mas realmente concordo a obra, Leo pode ser um desastre, mas ele com certeza é meu herói.


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 (Mudar é difícil, e isso o anime com certeza entende)



segunda-feira, 2 de setembro de 2019

O melhor antagonista de dragon Ball



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(Se fosse o Mr.perfect Cell do abridged realmente ficaria em duvida)


Jiren, sim essa realmente corresponde a minha opinião, incluindo dragon ball clássico, Z, e GT. Para dar uma ideia do porquê, iniciarei uma análise dele, e dos aspectos mais amplos da saga aonde este aparece, o universal survival arc.


Primeiro é importante contextualizar sua situação em relação ao arco, a mensagem central, que modela e tem muitos elementos a serviço de, “anime friendship is magic and solves everything”. Resumindo a saga é sobre amizade, os vínculos e relações que formamos com os outros, como tais vem muitas vezes a nos definir, sendo a maior fonte de poder assim como de experiências positivas, possibilitando a busca por felicidade.


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(Como não odiar e rir desse design, though)


Esse conceito é personificando na apresentação do time 7, como um grupo de amigos com laços duradouros, impossíveis de serem quebrados, e que atuam com um único objetivo fornecendo apoio e auxilio em vários momentos. Demonstrações mais claras disso vem de como cada derrota é tratada não como perda individual, mas sim como uma vitória para o time. N 18, mestre Kame, Kuririn, Gohan, Tenshinhan, passam seus últimos momentos não pensando que perderam, mas em como podem ajudar o grupo, abrir o caminho para a vitória com seus sacrifícios. Exatamente em decorrência disso, a chave do sucesso no torneio passa pelos personagens com objetivos únicos, que se negam a trabalhar com o universo 7. Ao finalmente se tornar uma unidade, trabalhando em conjunto, tendo os membros restantes se sacrificando, e atuando juntos apesar das diferenças, isso possibilita a superação do maior desafio. Tal dinâmica se enxerga até em relação a outros universos, a amizade e laço entre Kale, e caulifla, abre o caminho do poder para quase superar o muito superior Son Goku em batalha.


Outra coisa para se ter em mente é que o arco trabalha com quase uma reversão de papeis entre antagonistas e protagonistas. Goku e Vegeta podem ser talvez descritos mais tradicionalmente como adversários, em termos de função. Eles são as figuras mais ativas, propondo atitudes, novas ações e situações, modificando o status quo, assim como são eles que desafiam os ideais de Jiren e Toppo, não o contrário, os levando a mudanças de mentalidade, e desenvolvimento. Pegue o confronto Toppo x Vegeta como exemplo, nele temos os ideais de justiça, um idealismo de proteger diversos valores a qualquer custo, que Toppo apresenta na primeira metade do arco. No entanto ao ser confrontado com a impossibilidade de manter isso, sua justiça, orgulho, o símbolo dos pride troopers, por incapacidades pessoais, este descarta tudo em busca de poder, nascendo o Deus da destruição, Toppo. Um mero símbolo de força, a capacidade de destruir qualquer coisa em seu caminho, que não tem valor, ou significado algum.


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(É sério, só olha pra esse cara)


Em relação a tal visão temos Vegeta apresentando uma antítese.  Sua própria versão sobre o que seria se consistir do mais forte, alguém capaz de proteger tudo que realmente importa, Bulma, Trunks, sua promessa, e orgulho, um caminho de poder movido pelo desejo de manter seus laços e ideais. O personagem fala da própria experiência nessa questão, tendo cometido o mesmo erro, se dispondo a um sacrifício de tudo a sua volta ao permitir ser controlado por Babidi, na saga BUU. Existe um toque de insulto pessoal, de alguém se tornando o mais forte, seguindo tal caminho.


A singular situação de arcos estáticos dos principais, focando na mudança que estes causam nos adversários e no mundo vem da difícil situação de dragon ball super como narrativa. As histórias e questões de quase todos os personagens de DBZ se encontram encerradas há décadas, não havendo muito que fazer além de repetir os mesmos caminhos e desenvolvimentos, com efeitos cada vez menores. Em grande parte a estrutura que detalhei acima também se aplica ao clímax do arco, o confronto Goku x Jiren.


Com esta introdução fora do caminho, posso finalmente chegar à estrela do arco.  A introdução e seus momentos iniciais são algumas das mais enganosas, em relação a intenções em relação a Jiren.  No começo ele é esta imensamente poderosa, e visível ameaça, o qual aparente ser absurdamente vazia em termos de personagem. Não temos uma personalidade, reações únicas são impossíveis de se achar, sua impassividade em relação a tudo que está acontecendo é bem estranha, e nada de suas ações parece indicar uma mentalidade, ou características definidas.  Claro a obsessão com força está ali desde o começo, aliada a um aparente orgulho e convencimento até desmedidos, dando aberturas a qualquer um que venha enfrenta-lo, em usar seus melhores ataques, apenas para se mostrar o mais forte.  Tirando uma talvez peculiar necessidade de confirmação se encontram ausentes quaisquer características definitivas, ou muito em termos de conflito. Por enquanto minha descrição é a de um particularmente genérico vilão, que é mais um par de músculos, muito forte, do que um personagem.


No entanto conforme o arco avança, a rachadura nessa imagem de invulnerabilidade, ausência de sentimentos e fraquezas que Jiren projeta começa a se mostrar. Na verdade o anime diretamente menciona tal percepção, quando o n°17, questiona o personagem, quanto a que diabos ele poderia querer, não imaginando nele, qualquer desejo ou existência além da busca por poder.  Nesse momento uma janela para seu passado se abre, um de intensa luta, desejo e determinação, mas cercado pelas sombras de constantes fracassos e relacionamentos desfeitos.


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(É assim que um edgelord de respeito tem que parecer)


O aspecto mais marcante de sua backstory é a temporalidade de todas as interações que Jiren forma, e a submissão destas a poder. Durante sua vida existiram diversas pessoas, as quais importaram, seus pais, família, mestre, companheiros de luta. Durante muitos anos ele se esforçou junto a elas, tomando um caminho paralelo, ficando mais forte, criando laços, cooperando e mantendo aqueles importantes por perto, com o intuito de alcançar seus objetivos. Mas existe apenas uma resposta ao final desse caminho, o fracasso, impotência diante da verdadeira força, a realidade que fracos se unindo nunca serão capazes de realizar algo. Aliada a certeza que a qualquer momento você pode ser traído, rejeitado, abandonado, perder tudo o que é importante.
Poder se torna o foco e sua obsessão de vida, não o meio para se alcançar outros coisas. Jiren acredita que enquanto for o mais forte nunca vai ter que estar sozinho, não teria que se sujeitar aos outros, estar aberto ao fracasso, forçando sua vontade em relação ao mundo, e o obrigando a seguir seus próprios desejos.  Sendo o mais forte poderia obrigar o mundo a segui-lo, criando relações não de cooperação, mas de dependência, aonde todos precisariam dele, não teriam escolha, ou mesmo como abandona-lo.  Esse estado de coisas apenas seria paradoxalmente possível com o abandono das próprias conexões, fragilidades e circunstancias, as quais seriam a razão de sua suposta fraqueza, e o que o levam a perder tudo.


Existe uma contradição fundamental para entender o personagem e sua história. Porque Jiren constantemente mostra desprezar a ideia de conexão, dizendo que nunca tais importam, que alguém suficiente poderoso pode forçar qualquer coisa, sujeitando indivíduos a sua vontade. Mas ele ânsia por seu próprio passado, a imagem dos laços que este perdeu, como o fracassado incapaz de realizar qualquer coisa, é seu desejo, buscando reverter a essa situação com o uso das esferas do dragão.  A nostálgica lembrança dos anos de felicidade, as pessoas com que viveu, as experiências em que passou com cada uma delas, o assombram, motivando suas decisões.


No fundo Jiren realmente odeia estar sozinho, a mera ideia disso ser uma possibilidade é um fator que o traz imensa instabilidade. Por temer solidão, ela o leva a buscar ser forte, apagar qualquer caráter de fraqueza, dependência ou confiança nos outros, pois enxerga nessas características a possibilidade de se machucar.  Suas relações, amigos e laços estão unicamente em um passado há muito esquecido, que ele não consegue se perdoar por ter perdido. Sua busca por poder na verdade é uma negação da possibilidade de relacionamentos, que ele pode ser vulnerável, fraco ou sujeito aos outros, pois imagina que sendo forte nunca terá que passar por nada disso de novo. Não existira chance de ser rejeitado, o tempo, circunstancias e ações não terão a mínima possibilidade de abala-lo, pois finalmente alcançou o controle sobre tudo. Ao mesmo tempo que suas ações e busca por força o levam a sempre se afastar, ignorar os outros, assim como a realidade a sua volta.


São esses sentimentos que o levam ao primeiro conflito interessante contra o N 17. Este consiste do personagem, o qual também perdeu em seu passado o que julgava mais importante, sua humanidade ao ser transformado em androide. O arco constantemente toca em suas tentativas de entender, e imitar a natureza humana. Mas sua relação com as lembranças são completamente diferentes das de Jiren, este se nega a deixar que traumas o derrubem, eclipsem sua existência, e razão de viver. Muito pelo contrário estes o motivam, fazem o que ele é, sendo parte importante da experiência humana. Assim como achou diversas razoes para viver no presente, uma objetivo para trabalhar por. Logo como alguém olhando para o futuro e enxergando seu imenso potencial, N 17 se opõem violentamente nessa luta, chegando a quase se matar no processo. Note que em relação a tal confronto a impassividade do Jiren sumiu, ele está sendo desafiado por alguém que nega a própria razão do viver.


No entanto falta ao personagem a força, e capacidade de dialogar com Jiren, o forçando a aceitar sua situação. Nesse ponto a participação de Goku é essencial. Se existe alguma forma de Jiren justificar sua condição, estar sozinho, é pois imagina ser este o único caminho para ser o mais forte. Havia claras recompensas, e uma possibilidade de vínculos duradouras no futuro, graças a isso. Se alguém o superasse, mostrando ser mais poderoso, mantendo laços, relações, amigos, os protegendo no processo, e provando que conexões são na verdade a maior fonte de poder, ele perderia sua própria razão de viver. A busca pela força dava proposito a sua dor e perdas, essas eram um processo necessário em seu caminho, se afastando do mundo, pois apenas assim alcançaria uma verdadeira felicidade. Algo não transitório mas duradouro, e apenas por meio de intensos e infindáveis treinamentos completamente sozinho, seria capaz de chegar nesse ponto.


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(O design é uns 60% da razão que só eu consigo levar o Jiren a sério)


Son Goku ao obter e superar Jiren com nada do sofrimento, do divórcio quanto ao mundo nega a própria existência do personagem. Não é fácil de aceitar que tudo que você fez foi para nada, que na verdade está na sua frente, a pessoa que te superou, mantendo, e orgulhosamente mostrando as percebidas fraquezas, das quais você se afastou.  É exatamente essa constatação e possibilidade que este enfrenta, e não consegue aceitar durante toda luta, o medo do que ela pode significar, o levando a superar os próprios limites.


Mas ainda assim Jiren perde. Goku, seu poder, habilidade, as pessoas a seu lado, e o apoio de seu time o levando a superar limite atrás de limite, se mostram superiores nesse confronto. Uma derrota tanto física ao não estar à altura do universo 7, quando ideológica, ao aceitar o encorajamento e auxilio de Toppo, finalmente o reconhecendo como amigo em seus últimos momentos. Esta resposta a Toppo é muito importante, finalmente Jiren é capaz de reconhecer e confiar nos sentimentos dos outros, respondendo a eles. Enfim a pessoa mais insegura, com dúvidas sobre toda a realidade aceita a confirmação que o mundo, e pessoas a sua volta tem a oferecer, e esse momento é de uma beleza singular. Os últimos instantes do torneio de poder são uma extasiante conclusão, e épico confrontamento, as quais eu adoro não importa quantas vezes assista.


Talvez fracassos, apesar da dor e frustração ligados a eles, são realmente o melhor forma de aprendizado.  Jiren por meio dessa luta ganhou uma melhor compreensão sobre os laços e relacionamentos que o fascinam e aterrorizam, o permitindo recontextualizar a vida e escolhas. Sua existência nunca foi de solidão, seu afastamento e impossibilidade de se relacionar e confiar nos outros nunca foi completo. Mesmo ao buscar uma lenta morte, em uma obstinada busca por poder, ainda assim criou uma conexão com Toppo. Até o combate que era apenas um método de se provar o melhor, e que deveria estar sozinho, ainda o permitiu conhecer Son Goku, compartilhando algo único com este. Um vínculo que termina com um desejo de reencontro, e uma apreciação pelo tempo que passaram juntos.


Essas são as lições tirados pelo personagem de sua derrota. Este o permite pela primeira vez aceitar um futuro o qual realmente deseja construir, e não é apenas uma idealização do passado. Assim como pela primeira vez se afirmar como pessoa, alguém que quer criar relações satisfatórias, interagir com o mundo, não vindo a perder de novo.


Para terminar, estou ciente que existem diversos problemas quanto a forma que os elementos, os quais detalhei exaustivamente acima, são apresentados. Momentos importantes de seu passado, são entregados por monólogos de outros personagens de forma preguiçosa. Não existe um espaço e abertura para realmente dramatizar cada um dos elementos, a circunstancia e bagagem emocional que Jiren passa na luta, a qual é imensa. E mesmo eu não tendo um problema quanto a estrutura do arco, concentrando os fatos importantes do antagonista nos 7 episódios finais (essa é uma saga com centenas de personagens e lutas, o que diabos deveriam fazer?) este é uma questão facilmente evitável. Cortar um pouco de lutas, e minibosses aleatórios, para fazer o arco e desenvolvimento do best boy mais orgânico e dramatizado faria maravilhas.


Nada disso muda as muitas coisas que tal saga faz certo. Em termos de antagonistas, com motivação, características, mentalidade, e ideologia claras, Jiren é facilmente o mais complexo e interessante dos vilões de dragon ball (o patamar é meio baixo, eu sei). Mas a função temática é o que realmente o separa, sendo o contraponto, e real desafio, a moral e atitude do arco. E diria que ele cumpre a ideia de desafiar a noção mais velha do universo, Anime friendship is magic and solves everything, admiravelmente bem.


Meu principal proposito aqui era além de analisar, o talvez mais odiado antagonista de Dragon Ball, era o mostrar que mesmo quanto a animes ruins analises são importantes. Dizer Dragon Ball Super é ruim, 3/10, não se incomode é simples. Mas o trabalho do crítico vai além disso, analisando como os diversos elementos de uma obra de arte se integram, formam o todo, e os valores que o criador quer passar. Pois mesmo nesses imperdoáveis 3/10, com pouquíssimas qualidades, existem certas ideias, elementos, ou circunstancias aproveitáveis, e bons, os quais o crítico deve reconhecer em seu veredito. O simples fato de algo não alcançar excelência não a torna imediatamente um completo pedaço de lixo, sem nada a oferecer, essa consciência é para mim algo que precisa ser mais cultivado.


 Resultado de imagem para broly dragon ball

 (Super Broly é um legítimo 3/10, que não vale a pena assistir) 



For Takver

Ancoms não são anarquistas.

  Marxistas e ancoms todos tem a pior ideia possível, de síntese entre a sociedade civil, e o estado. Tais não são estatistas em um sentido ...